sexta-feira, 16 de março de 2012

Será que há inocentes?

Em consequência do seu modelo de economia social, a que ninguém no mundo pode ficar indiferente mas, tão só, invejoso, a Europa atravessa uma fase crítica no seu desenvolvimento. Não tendo ainda conseguido “exportar” os valores deste seu modelo organizacional, viu partir a sua agricultura, a sua indústria, o seu capital e o seu know-how para os denominados “países emergentes”, detentores de matérias-primas e mão-de-obra barata. Ou seja, “exportou” a sua própria atividade económica!
Sem demonstrar quaisquer instintos belicistas e na expectativa de que o resto do mundo venha a adotar o seu modelo social, este estádio atual da economia europeia está a permitir o desenvolvimento económico dos países emergentes. Digamos que a Europa, no seu conjunto e desinteressadamente, assumiu um verdadeiro papel de solidariedade para com o globo.
Esta virtualidade da “globalização social” deveria ser positiva e claramente assumida pelos dirigentes políticos europeus, consagrando o espírito próprio deste velho continente na sua visão do mundo, de forma a mobilizar a participação todos os seus cidadãos (incluindo os “indignados”) neste louvável objetivo. Mas, simultaneamente, aqueles dirigentes deveriam também definir e adotar, explicando, o modelo necessário à sustentabilidade económica do espaço que governam.
Como, pelos excedentes gerados, o capitalismo tem a virtualidade de sempre gerar equilíbrios, se bem que instáveis, vai ser possível à Europa, num qualquer futuro, voltar a deter uma interessante quota na produção de bens, quanto mais não seja em resultado da proximidade do mercado. O problema que se lhe coloca é o de saber se ainda existirão consumidores em quantidade suficiente e, no caso afirmativo, com a necessária capacidade financeira, quando tal reequilíbrio for atingido.
Com efeito, a política cega e desgarrada de redução de salários, transversal na Europa numa tentativa de ganhar competitividade no preço dos seus produtos, vai drasticamente reduzir a relevância do forte argumento que, neste momento, ainda possui nas negociações internacionais – enorme mercado de consumo –, não só pela diminuição do seu poder de compra, como pela emigração que tal política causa.
No surdo silêncio das autoridades, subsistem alguns europeus que, conhecedores desta realidade e não se resignando aos subsídios que aqueles concedem, dignificam a sua origem e conseguem beneficiar no mercado global, sem prejuízo dos valores europeus: democracia e liberdade, em paz. São exatamente estes os que, na prossecução da sua atividade económica, vão conseguindo produzir e comercializar mundialmente os seus bens e serviços, não por estes terem um preço baixo, mas pela respetiva qualidade, originalidade ou raridade, sejam esses qualificativos mesmo próprios, seja pela possibilidade de lhes serem associados pela via da promoção publicitária.
No entanto, surge a crise financeira e tudo fica a nu. Não só não estavam pensadas, sequer, as medidas políticas para a sustentabilidade económica de todo o espaço europeu, como rapidamente se demonstrou a inexistência de qualquer espírito de solidariedade entre os países que o compõe. Se bem que com influência temporal na atividade económica, mas não deixando de ser especificamente financeira, esta crise deveria ter sido abordada, resolvida e explicada, dentro do seu próprio âmbito, pelo necessário ajuste temporal, uma vez que, como todos saberão, a atividade financeira resulta exclusivamente do diferencial de tempo decorrido entre duas datas, mesmo que, a futura, seja ainda desconhecida. Por exemplo, deveriam ter sido tomadas medidas que evitassem a especulação financeira a que diariamente vimos assistindo: enormes fortunas virtuais conseguidas em negócios puramente financeiros, transferindo “potenciais” lucros futuros, que se vêm sempre a revelar como “consumados prejuízos”, para os adquirentes! Se associarmos a este negócio a origem e o destino deste capital, chegaremos, na generalidade dos casos, às mesmas entidades – Fundos de Pensões –, os quais deveriam estar permanentemente vocacionados (regulamentados) para o desenvolvimento da atividade económica, gerando emprego e, consequentemente, novos financiadores daqueles fundos, assegurando a sua própria sustentabilidade, e não para atividades especulativas de que só beneficiam os respetivos “gestores”.

Será que há inocentes?

Todo este introito tem em vista uma análise pragmática da crise que o Douro atravessa, enraizando-a no espaço económico em que se insere. Destacadamente, a sua principal atividade é a produção de vinho e, à semelhança do já atrás afirmado quanto ao preço dos produtos europeus, aqui agravado pela morfologia do solo, suporta um custo de produção superior à de qualquer outra região do mundo. Não podendo, por isso, ser competitiva no preço dos seus produtos, tem a enorme vantagem de ser a única que obtêm um produto mundialmente reconhecido e apreciado – o Vinho do Porto.
O problema do Douro resulta exclusivamente de não existir consumo mundial suficiente para as 260 mil pipas de vinho que produz anualmente, em média. Neste momento e se juntarmos o Porto, Moscatel, DOC’s, Espumantes e Regionais, a comercialização ronda as 200 mil pipas, mas, de acordo com os operadores, o preço praticado para a generalidade desses produtos não cobre os respetivos custos de produção. Esses preços, pressionados em baixa pelos excedentes anualmente gerados, são determinados pelas produções de regiões vínicas de maior produtividade e menores custos de produção e não pela própria estrutura de custos da região.
Claro que dirá qualquer leigo (para não falar nos conhecedores mal-intencionados), se não existe mercado para o consumo integral da sua produção, a região deverá proceder ao arranque da vinha excedentária, ajustando a oferta à procura. Felizmente nem todos são leigos, pelo que nem todos assim pensam. O arranque da vinha acarreta uma imediata diminuição da produção, um aumento do desemprego, com a consequente desertificação social regional e, em anos de fraca produção, escassez de oferta.
Já para os conhecedores, não só da realidade regional como da problemática europeia acima descrita, existe uma outra possibilidade muito mais atual, interessante e abrangente para a região e para Portugal.
A beneficiação do vinho generoso, com aguardente vínica, implica o consumo de 230 pipas de mosto para a produção de 100 pipas de Vinho do Porto. Basicamente é esta a fórmula que, evitando a ocorrência de excedentes anuais na produção vínica regional e, consequentemente, a degradação dos preços dos seus produtos, permite ainda a rápida adaptação da produção (oferta) ao consumo (procura). Ou seja, produzindo o Vinho do Porto exclusivamente com a aguardente regional e sendo acordado anualmente um preço para aquisição de vinhos, que produzirão essa aguardente, suficientemente compensador para fazer face aos custos suportados, a região duriense obterá a receita necessária à sua própria sustentabilidade e sem qualquer ajuda exterior.
Evidentemente que o preço de venda do Vinho do Porto irá subir de forma a poder cobrir os respetivos custos de produção. Mais, dizem os operadores, duplicará de preço à saída da vinificação, que não no consumidor, dados os custos complementares do embalamento e do Imposto sobre o Consumo de Bebidas Alcoólicas se manterem estáveis. Mas não será este, neste momento, o único caminho para aumentar o valor da produção regional, nacional e, mesmo, europeia?
Nestes termos, sobrará um único argumento para não avançar com este projeto: a possibilidade da diminuição da comercialização de Vinho do Porto, em consequência do aumento do seu preço. Mas será esta a verdadeira razão? Vejamos:
- a promoção publicitária, imprescindível em qualquer solução para o Douro, obstará a drásticas reduções no consumo
- a fórmula, acima referida, permite uma rápida correção do volume a produzir, assegurando o equilíbrio anual entre a oferta e a procura e escoando toda a produção
- mesmo com uma redução de 50% na comercialização, dizem os estudos já efetuados, a receita da região aumentará, cobrindo os custos da produção

Será que há inocentes?




Autoria: Arlindo M. Souto e Castro



Fica aqui mais uma vez expresso o nosso mais sincero e profundo agradecimento. 

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